Na manhã mais fria, o menino achou uma flor. Era tão cheirosa, e tão bela! Ele logo arrancou-a da terra e pôs dentro do bolso da camisa. A mãe ao ver disse que aquilo não era apropriado à um garotinho, e ordenou-lhe que retirasse-a e jogasse-a fora. Não obedeceu.
Quando chegou à escola, a professora teve a mesma atitude, e lhe deu uma ordem igual, a qual também não foi cumprida. Seus colegas lhe disseram mesmo, e riram. O menino não entendeu. “Como alguém poderia achar indigno carregar consigo uma planta e rir e de uma coisa tão bela?” Na mesma noite teve um sonho.
Ele se via à frente de um espelho enorme, e de trás do objeto saía uma luz forte e vermelha. Sentiu medo, e curiosidade. Logo ouviu uma voz, que lhe dizia para observar-se, e julgar-se. Ele não compreendeu, mas assim o fez. Seus olhos desciam centímetro a centímetro, até chegarem aos pés. Viu seus sapatos pretos, já um pouco velhos. Voltando, passou-os pela calça amassada e depois pela camisa desbotada. Percebeu que era a roupa que usava durante o dia. Olhou o próprio rosto: era ligeiramente abatido, um olhar cansado, mas incrivelmente feliz. Após a analise, perguntou à voz o que deveria ser julgado. A resposta foi: “O que desejar”. Pensou, reparou novamente nas vestes, mas desta vez percebeu sua flor. E então respondeu que não era bonito, e apesar do certo ar de felicidade, que sentia-se pequeno. A voz imediatamente o repreendeu em tom forte, questionando-lhe o porquê da afirmação. Retrucou, então, que era porque todos que prezava não gostavam de sua flor, e que não entendia o motivo de tanto descaso. Não entendia como aquelas pessoas não conseguiam notar a beleza que ele via na tal planta. Não sabia que mal havia em colocá-la no bolso, e usá-la sem que niguém o reprimisse. A voz soltou uma leve risada, e com essas palavras aliviou-lhe o pensamento: “Pobre garoto, ainda não conhece a malícia... Aprenda uma coisa: as pessoas diferentes estão por toda parte. Diferentes como você, diferentes como eu. Não são notadas nunca, e assim que atraem um olhar, são maltratadas. Por não fazerem parte do normal, acabam passando por situações constrangedoras, e isso simplesmente por não serem como todos. Mas existem seres que prezam as diferenças, e enxergam além dela. E sabem que elas realmente não importam, porque internamente todos somos iguais. Aqueles que não as compreendem, as julgam erradas e perniciosas”. Sentiu-se tocado. “Mas isso não me parece justo...”. A voz então lhe pediu para gravar uma palavra: ignorância. Acrescentou que os “juízes” não julgavam por mal, apenas por falta de conhecimento. Ainda mais confuso, perguntou como previnir-se disso, e a resposta foi: “Sendo você, como sempre foi. À quem não agradar, simplesmente lance um sorriso. E à quem agradar, faça igual”. Ele então compreendeu o que a voz dizia.
Acordou.
Sorriu.
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Um comentário:
Muito bonito, adorei!
Você é muito bom escrevendo narração. Estilo crônica :D
Eu prefiro dissertação pra escrever, porque sou ruim narrando HAHAHA
Mas enfim, adorei, pra variar.
Beijos, bonitão!
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