A moça:
Quando entrei no carro, já vinha desnorteada. Liguei o motor, saí de arrancada. Tive sorte de passar por todos os semáforos verdes, porque se estivessem vermelhos, eu os ultrapassaria mesmo assim. Minha vontade era chegar em casa, tomar um banho, tirar a maquiagem, esquecer o dia e dormir, mas minhas lembranças me perseguiam como uma onça persegue a presa, me encarceravam numa sela sem metal, na qual a única coisa que realmente me sufocava era o próprio pensamento.
Cheguei em casa. Roupas no cesto, toalha seca, xampu e sabonete. Aquele parecia o melhor momento que eu tivera nas últimas vinte e quatro horas. A água estava morna, naquela temperatura ideal para um banho relaxante. E então voltaram meus carrascos, mais fortes que da última vez. Vinham e me faziam chorar essas lembranças malditas. O dia foi tão atordoante, que eu não sabia mais como me proteger de tais idéias. Me lembrava do olhares, do desprezo, a forma mais cruel inventada pelo homem para ofender à alguém. Aqueles hipócritas!
Nesse instante, bateram à minha porta. Era a polícia.
O bar-man:
Não sei exatamente o que acontecia. Vi gritos, como numa briga, e um copo quebrando no chão. O susto foi geral, a festa toda parou! Uma moça chorava, e clamava por misericórdia. Continuei sem entender. De frente para ela, um senhor e um jovem rapaz, que tinham no olhar um fúria que eu jamais vira. O jovem estava vermelho, e quando falava usada um tom de desprezo. Fiquei com pena da moça, parecia a maior humilhação de sua vida. Mas o que podia eu fazer atrás do meu balcão? Calei e esperei.
O jovem:
Fiz o que achei que devia ser feito. Na frente de todos, sem dó! Não que eu seja frio, só fui sincero.
O senhor:
Chamei a polícia.
Pouco depois, o bar-man conversava com alguém:
- Você entendeu?
- Mais ou menos...
- E então?
- O senhor era pai do rapaz.
- Sim, mas qual era o motivo da discussão?
- Pelo que ouvi, a moça matou a mãe do garoto.
Simultaneamente, pai e filho:
- Eu disse que daria tudo certo.
- Ainda bem que acabou...
- Concordo, mais ainda há providências a serem tomadas!
- Quais?
- Onde esconderemos o corpo?
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Um comentário:
Greetings from Bologna, Italia!
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